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Resumos
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Escrito por Cecília Meirelles
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Ter, 24 de Março de 2009 22:07 |
O clima de segunda guerra mundial afundou Cecília nos versos de Mar Absoluto (1945). Características: virtuosismo verbal, musicalidade, preferência por versos curtos, delicadeza e espiritualidade. Melancolia que se manifesta na preferência por temas como solidão, fugacidade do tempo, resignação diante da falta de sentido da vida. Abstração,atmosfera de sonho e tom intimista. Um conjunto de lirismo único, expresso em versos como os do poema Guerra, de Mar Absoluto e Outros Poemas (1945), em que Cecília mantém a métrica e o ritmo sem (supostamente) se desligar do seu século, atenta, como seus contemporâneos, ao mundo ao redor: “Tanto é o sangue / que os rios desistem de seu ritmo, / e o oceano delira / e rejeita as espumas vermelhas. // Tanto é o sangue / que até a lua se levanta horrível, / e erra nos lugares serenos, / sonâmbula de auréolas rubras, / com o fogo do inferno em suas madeixas. // Tanta é a morte / que nem os rostos se conhecem, lado a lado, / e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.”. Em Mar Absoluto e Outros Poemas a poetisa mais uma vez pronuncia seu olhar pictórico e deixa uma das suas marcas poéticas que é a acuidade perceptiva, a agilidade em diluir o arco-íris em poesia como podemos observar no seguinte poema:
Amor-perfeito
Suas cores são as de outrora, com muito pouca diferença: o roxo foi-se quase embora, o amarelo é vaga presença. E em cada cor que se evapora Vê-se a luz do jardim suspensa.
Veludo de divinos teares, hoje seda seca e abolida, preserva os vestígios solares de que era feita a vida: frágil coração, capilares de circulação colorida.[...].
Nesse livro, além da valorização imagística, há também pluralidade de cenas representativas do cotidiano humano, uma visão subjetiva do mar, relevante destaque às pedrarias e um especial carinho a variados tipos de flores. Em Retrato Natural os recursos visuais também marcam fortemente o exercício poético de Cecília Meireles; os traços, as cores, as sombras, as claridades e as sugestões de desenhos são aspectos importantes na composição do referido livro que retrata tão bem instantâneos de todos nós. Além das artes plásticas, outras artes que sempre estiveram presentes na vida da poeta se revelam entranhadas em toda a sua poética. Percebe-se no livro Romanceiro da Inconfidência, um épico-lírico, uma íntima relação com o teatro, a música e a pintura. Pode-se ver, através da linguagem múltipla presente na obra, o entrelaçamento dos recursos cênicos, sonoros e plásticos que fluem ao longo do texto. Em torno do texto poético da autora sempre percebemos uma névoa que em vez de criar uma obscuridade, sugere uma leveza, como se os versos flutuassem ao som de uma vaga música oriunda, quem sabe, do som de alguma lira que estabelece a ligação dos tempos poéticos, numa dimensão outra que a real, o tempo do misticismo lírico tão próprio da poetisa:
"Falai! meu mundo é feito de outra vida. / Talvez nós não sejamos nós". Assim, Cecília Meireles foi prosseguindo a sua escritura, compondo as suas canções poéticas com os reflexos da vida, os raios do sol, o pisca-pisca das estrelas, as alegrias, tristezas e ilusões humanas, não importando se eles provinham de um metal rossicler [pedra negra que depois de bastante martelada pode transformar-se em pedrinhas de todas as cores] ou de eventos dispersos levando-se em conta a complexidade da existência tão bem captada pelas nuanças da solombra que cercam a vida dos mais variados mistérios. Percebe-se uma infinita nostalgia na alma de Cecília, "uma espécie de tonto maravilhamento por se encontrar num mundo formal, anguloso, ensolarado, cruamente realista e um ansiado desejo de regressão ao seu neblinoso mundo interior, feito de esgarçados devaneios. É como a tristeza de um exilado que não se conforma com a paisagem espiritual e física do seu exílio. Daí, como uma constante, a nota de desenanto, a tristeza de uma enervante saudade interior por outro tipo de vida ou por outra essência de criaturas". No poema Transição pode-se verificar um pouco dessa aura de mistério que circunda a existência humana:
Uma tristeza e uma alegria o meu pensamento entrelaça: na que estou sendo a cada instante, outra imagem se despedaça. Este mistério me pertence: que ninguém de fora repara nos turvos rostos sucedidos no tanque da memória clara. (Chorai, olhos de mil figuras, pelas mil figuras passadas, e pelas mil que vão chegando. dia...- não consentidos, mas recebidas e esperadas!)
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Mar Absoluto
Foi desde sempre o mar, E multidões passadas me empurravam como o barco esquecido.
Agora recordo que falavam da revolta dos ventos, de linhos, de cordas, de ferros, de sereias dadas à costa.
E o rosto de meus avós estava caído pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas, e pelos mares do Norte, duros de gelo.
Então, é comigo que falam, sou eu que devo ir. Porque não há ninguém, tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos. E tenho de procurar meus tios remotos afogados. Tenho de levar-lhes redes de rezas, campos convertidos em velas, barcas sobrenaturais com peixes mensageiros e cantos náuticos.
E fico tonta. acordada de repente nas praias tumultuosas. E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos. "Para adiante! Pelo mar largo! Livrando o corpo da lição da areia! Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!" Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas. A solidez da terra, monótona, parece-mos fraca ilusão. Queremos a ilusão grande do mar, multiplicada em suas malhas de perigo.
Queremos a sua solidão robusta, uma solidão para todos os lados, uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo, e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.
O alento heróico do mar tem seu pólo secreto, que os homens sentem, seduzidos e medrosos.
O mar é só mar, desprovido de apegos, matando-se e recuperando-se, correndo como um touro azul por sua própria sombra, e arremetendo com bravura contra ninguém, e sendo depois a pura sombra de si mesmo, por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.
Não precisa do destino fixo da terra, ele que, ao mesmo tempo, é o dançarino e a sua dança.
Tem um reino de metamorfose, para experiência: seu corpo é o seu próprio jogo, e sua eternidade lúdica não apenas gratuita: mas perfeita.
Baralha seus altos contrastes: cavalo, épico, anêmona suave, entrega-se todos, despreza ritmo jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si, da sua terminante grandeza despojada.
Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões: água de todas as possibilidades, mas sem fraqueza nenhuma.
E assim como água fala-me. Atira-me búzios, como lembranças de sua voz, e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.
Não me chama para que siga por cima dele, nem por dentro de si: mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom. Não me quer arrastar como meus tios outrora, nem lentamente conduzida. como meus avós, de serenos olhos certeiros.
Aceita-me apenas convertida em sua natureza: plástica, fluida, disponível, igual a ele, em constante solilóquio, sem exigências de princípio e fim, desprendida de terra e céu.
E eu, que viera cautelosa, por procurar gente passada, suspeito que me enganei, que há outras ordens, que não foram ouvidas; que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos, e o mar a que me mandam não é apenas este mar.
Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças, mas outro, que se parece com ele como se parecem os vultos dos sonhos dormidos. E entre água e estrela estudo a solidão.
E recordo minha herança de cordas e âncoras, e encontro tudo sobre-humano. E este mar visível levanta para mim uma face espantosa.
E retrai-se, ao dizer-me o que preciso. E é logo uma pequena concha fervilhante, nódoa líquida e instável, célula azul sumindo-se no reino de um outro mar: ah! do Mar Absoluto.
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Última atualização em Ter, 24 de Março de 2009 22:12 |
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